sexta-feira, 11 de abril de 2014

ESPECIAL QUEEN NO MORUMBI

Olá fãs de Queen.... Um grande amigo meu e  apreciador da banda Queen, ame apresentou este material MARAVILHOSO sobre o Queen no Morumbi em 1981. 
 Como o autor deste relato feito em 8 partes é alguém que esteve diretamente ligado á banda e ao evento, irei aqui apenas compartilhar com vocês este material.
 espero que curtam tanto quanto eu.. Aos que foram relembrar.. aos que não puderam lá estar.. sintam-se.. em casa.






                                      QUEEN NO MORUMBI - POR SERGIO MATTAR
 Parte 1:

Olá amigos,
Naquela noite fria de 1981, estava tremendo como se fosse a primeira vez que teria tal responsabilidade ….
Tive a felicidade e a honra de ser o primeiro diretor brasileiro a dirigir um concerto ao ar livre no Brasil e dos bastidores.
Gostaria de contar um pouco do Queen desde a Argentina, onde descansavam até o momento que embarcaram para o Brasil.

Estava Walter Clark e eu conversando, quando o telefone toca …
Do outro lado o Poladian (importante produtor de espetáculos):
(aos berros)
“Sabe quem está descansando na Argentina?”
Pausa:
“Quem?”
“Ele maldosamente”:
“Q U E E N”
Coloquei a mão no bocal do telefone e traduzi pro Walter.

Rapidamente o que o bom Poladian tinha dito.
Ele deu um salto.
“E o que estamos fazendo aqui?”
Combinamos um encontro com o Manoel Poladian … Fomos embora.
Conversamos e na manhã seguinte eu estava a caminho de Buenos Aires.
De cara nos gostamos … eram muito simpáticos e gente muito boa. Mesmo …
Eles tinham findado uma temporada pela América do Sul.
Deram um tempo na Argentina e de lá retornariam para Londres.
Bem, o interessante foi convence-los a REALIZAREM um concerto em São Paulo, substituindo uma exibição no Rio de Janeiro que havia sido censurada pelo então Governador do Estado da Guanabara.
Enquanto isso em São Paulo, o Clark e o Poladian negociavam com os dirigentes do São Paulo FC., O Estádio do Morumbi.
Voltando pra Buenos Aires … pra minha satisfação eles (Queen) perceberam na minha proposta a possibilidade de torná-los mais populares no Brasil. Foi emocionante … Daí pra frente muitas perguntas interessantes sobre a nossa terrinha, etc …

Claro que valorizei o Brasil, mas não menti. Brilhavam os olhos dos meninos, ao contrário do seu gerente, que a toda hora cortava nossa conversa.
Viemos no dia seguinte pra São Paulo. A Trupe e. .. eu!
Graças ao bom Deus, o tempo estava maravilhoso. Céu azul, brisa fresca, tudo lindo, afinal.
Fomos do aeroporto para o hotel, onde já nos esperava Manoel .
Num papo de meia hora, saíamos do hotel, com um sorriso de lado a lado.
Tínhamos uma bomba nas mãos. Só não sabíamos se era uma bomba amiga ou não!
Dividimos o trabalho, o Poladian o Walter e eu.
Confesso que estava emocionado. Seria este um passo importante que estava dando na minha carreira. Fazer a Direção Geral do Queen e ser o realizador do evento. Estava muito feliz.
Muito mesmo …
No próximo texto: O emocionante encontro dos paulistas com a banda Queen.


 Parte 2:

“Os bastidores do Queen”
A primeira coisa que fiz, realmente foi ficar um dia sem contato com ninguém.
Dia seguinte:
Sentei em minha cadeira, dei uma boa espreguiçada e convoquei a turma operacional da Bandeirantes.
Ninguém sabia de nada ainda…
Quando o Carlos Alberto Bottini  (diretor de operações) entrou com aquele seu indefectível sorriso (um dos caras mais queridos da televisão brasileira) e, eu de mansinho comecei a contar pra ele o que estávamos aprontando.
Descolorou!!! e quase aos prantos:
“Não”… levando as mãos á testa e tombando dramaticamente no sofá em frente a minha mesa.
Se recompondo:
“É verdade isto? Não é ?… brincadeira ?… confessa!!
Eu calmamente degustando aquele momento disse.
“Botta, quero doze câmeras e uma mesa de som imbatível”
Ele começou a rir de nervoso.
Nós sabíamos das limitações da Bandeirantes.
Levantei e fui até perto dele:
“Bottini , tem horas que é sim ou sim. Escolha!”
Passamos parte da manhã planejando junto com os engenheiros do Queen  e da Bandeirantes todos os deta
lhes daquele que eu queria que não saísse das cabeças das pessoas por tempos e tempos… O “Concerto do Queen no Morumbí”.
Deixei os técnicos se acertando e fui levar o Clark pra almoçar comigo e de lá iria me encontrar com os meninos.
Foi ótimo aquele almoço. Uma mistura de expectativa, conquista e medo…
Me despedi do Walter na porta do restaurante e parti  ao encontro da Banda.
Fui seu cicerone. Este tinha sido nosso trato. Eles tinham sede de conhecer São Paulo… Não me fiz de rogado, entramos no carro e lá fomos nós.
Nem eu acreditava…
Nem eles…

Parte 3:

“O aparato técnico de todos nós”
Era bem cedinho.
Entrava devagarinho no estádio do Morumbí. Estava fria aquela manhã.
Me aproximei daqueles homens que atravessaram a noite construindo o imenso palco e, montando outro tanto que a produção inglesa trazia.
Era uma “tralha” que só estando perto pra poder entender e depois, ficar quieto pro resto da vida, pra não me passar por mentiroso. Caso contasse pra alguém.
Os engenheiros de som selecionavam cabos e mais cabos atrás de uma mesa de som pra uso no palco. A mesa, propriamente dita era algo fantástico. Hoje percebo quão paroquial eu era, mesmo tendo trabalhado nos Estados Unidos.
Aos poucos foram chegando os técnicos das diversas áreas de atuação.
Tínhamos preparado um café bem brasileiro para saudá-los naquele primeiro dia de trabalho. Juntamos-nos todos e, muita conversa e troca de experiências.
O São Paulo exigiu que protegêssemos o gramado. Então, “seu Gino”, gerente do estádio, providenciou “um tanto” de compensado que não tinha mais fim. Eu dava risada, pois na minha perspectiva aquela madeira é que acabaria com a grama, enfim!
Seu Gino foi uma pessoa fantástica pro sucesso do nosso evento.
Tínhamos consciência de que aquele concerto marcaria a cidade de São Paulo e abriria o mercado internacional para os grandes concertos ao ar livre que excursionavam pelo mundo.
Era preciso passar confiança e talento pra coisa. Não podíamos errar. Não mesmo.
Saí do estádio por volta das 2 horas da tarde e fui me encontrar com o Polladian.
Tivemos uma conversa séria sobre direitos autorais, de imagens e conexos.
Tenho muito cuidado com direito autoral, porque sofro direto o efeito deste devastador piratismo. Sabe o que é cumprimentarem os outros com o seu chapéu? Te usarem? Ser aba de panamá?
Bem, fico por aqui…
Amanhã conto mais…


PARTE 4:

“Freddie, Brian, Roger e John”
A Banda Queen era a simpatia psicodélica em pessoa.
Adorei os rapazes.
Eu estava impressionado com a disposição dos quatro.
Imaginem, eles tinham ido do Japão para Buenos Aires, fizeram uma apresentação por lá,também em um estádio de futebol e, quando começavam a achar que o mundo era lindo, quem chega perto deles??? Quem??
Isto mesmo. Acertaram.
Eu tenho certeza que eles não eram “chegados” à drogas. Passei bom tempo da estadia com eles aqui em Sampa e nada notei de diferente, sei lá.
Já era tantas da madrugada quando saímos do Victória Pub, um dos raros Pubs no Brasil. As pessoas viam e não acreditavam no que viam…Olhavam e olhavam até estarem convencidas de quem se tratava. Surpresa no ar…
Bem, naquela hora os freqüentadores já estavam pra lá de Bagdá à saída do Pub e, sequer tinham certeza se eles eram eles mesmos.
A bem da verdade, os meninos da Banda não tinham suas imagens totalmente fixadas nas mentes juvenis, principalmente no Brasil.
Dia seguinte, dediquei todo meu tempo na televisão, na feitura de chamadas e “teasers” para colocar rapidamente no ar.
Era uma caveira com top regressivo. Alguém lembra?
Fui pro estádio e aí sim senti o drama de perto. Eles tinham trazido seus equipamentos em um 747 Cargo.
Um 747 !!!
O trabalho dos ingleses, assim como dos brasileiros era admirável. Todos em sintonia.
Senti-me orgulhoso.
E assim, Freddie, Bryan, Roger e John começavam a entender um pouco do espírito do brasileiro.
Brasil, a paixão de Fred Mercury.
Voltamos após o sono merecido…


PARTE 5:

“A Televisão e o Queen”
20 de março de 1981.
Estava totalmente absorto e abstraído de tudo e de todos.
Queria me concentrar ao máximo.
Eram cinco horas da tarde.
Deixava os problemas pra traz à medida que me aproximava do estádio do Morumbí, aquele estádio que daqui a poucas horas abrigaria milhares de jovens.
Meu coração pulava no peito.
Parei meu carro bem ao lado da carreta (Bandeirantes) e dos ônibus de externa acoplados a ela.
Andei vagarosamente até o meio do gramado, mãos nos bolsos, relaxado e com olhar fixo naquele imenso palco e sua estrutura colossal, jamais visto no Brasil. Parei.
Ao longe, no lado externo do estádio os cânticos dos meninos e meninas, enaltecendo as músicas daquele grupo que, em algumas horas estaria ali, naquele palco com paredes de caixas e mais caixas de som, uma muralha.  Era de arrepiar…
Fui me aproximando dos técnicos pra fazer o “check-out”. Chegando mais perto ouvi uma espécie de discussão entre o pessoal da luz do Queen com o  da televisão.
Pensei no pior.
Não era o pior. Era muito pior do que imaginara…
O pessoal da iluminação da Banda não queria permitir que a televisão usasse luz no público, ou seja, as imagens do campo estariam sempre no escuro e não conseguiriam ser captadas pelas câmeras, tecnicamente falando.
Fiquei assustado.
Trazer o Queen e não poder mostrar sua conexão com aquele povão todo!
A relação dos jovens, com suas reações e energia era parte fundamental para aquele espetáculo. Imediatamente fui ao encontro do pessoal técnico-artístico da Bandeirantes e pedi uma reunião.
Enquanto isso, me dirigi ao escritório do Gino (gerente do São Paulo).
Conversei por minutos com ele e voltei pro pessoal da televisão.
Pedi que se preparasse para uma excepcionalidade.
Entrei em contato via-rádio com o controle geral da emissora e solicitei que providenciasse uma máquina extra de vídeo-tape para uma gravação urgente.
Era uma emergência.


PARTE 6:

“A invasão no gramado”
Olhei pras câmeras e decidi…
Os portões se abriram e aquela gente toda correndo à procura dos melhores lugares no campo.
Esperei o maior tempo possível.
Tinha que cair um pouco mais a luz do dia e ter o máximo possível de gente próxima do palco
Enquanto acontecia toda aquela movimentação no gramado eu reuni no palco os engenheiros de som e luz e fiz um pedido a eles…
Confirmei por rádio se a área técnica da televisão estava pronta e…
Com as câmeras do palco, no lugar do Queen, viradas para o público, os “câmera-men” iriam dar um show de imagens, closes e expressões emocionadas daqueles rostos jovens e inquietos da massa de gente que em segundos se iniciaria.
Quando as caixas de som emitiram os primeiros acordes da primeira música do Queen, iniciou-se um tremendo delírio de Luz, emoção, cores, lágrimas, mãos se entrelaçando e muito mais …
Era o que eu tanto precisava…
A fita master tocava trechos de cada música que seria executada no espetáculo. Música a música.
Todos aqueles meninos e meninas cantavam e brincavam com suas mãos e assim por diante…
Concluída esta parte, solicitei ao controle master da Bandeirantes que na hora do Concerto ao vivo estivesse simultaneamente ao Show, no swicth da emissora, um diretor de imagens para mixar as imagens que tínhamos gravado com as imagens que viriam ao vivo do concerto.
No “ar” as pessoas viriam o Queen e os jovens ao mesmo tempo, como se não tivesse havido aquele contra tempo lá atrás. Lembram-se?
O de não poder usar luz no gramado…
Bem, agora era novamente me concentrar e não entrar em nada paralelo.
Faltava muito pouco tempo.
Tudo parecia correr nos trilhos…
De repente…


PARTE 7:


“Muita emoção”
“20 de março de 1981″
Já tocava o bip dos trinta segundos.
Eu estava pronto naquela mesa de corte..
Vinte… dezenove… dezoito…
Rock, luzes e muita emoção. Quem esperava um atraso de pelo menos meia hora para o início do show acabou ficando surpreso e perdeu a entrada triunfal do grupo QUEEN no Morumbi. Britanicamente, Roger Taylor, Freddie Mercury, Brian May e John Deacon iniciaram o primeiro grande concerto de rock no Brasil exatamente no horário previsto.
Sob luzes azuis, amarelas, verdes e vermelhas, dez canhões de fachos brancos que se alternavam durante o espetáculo, ruídos siderais que mais lembravam uma nave espacial em decolagem, os quatro integrantes do grupo despontaram no palco, entre nuvens densas de gelo seco, para delírio geral dos mais de 200 mil jovens que lotaram o estádio.
Neste momento as dezenas de faixas e cartazes confeccionadas por grupos de fãs foram agitados freneticamente, saudando seus grandes ídolos: “We love you”; “We like banana and rock”; “Queen: kings of quality rock” escritas em corretíssimo inglês eram frases que se destacavam na multidão.
Desde seu início, o show já dava mostras de reunir todos os ingredientes fundamentais para um agitado acontecimento, durante duas horas de intensos embalos. O profissionalismo da equipe de produção, a sofisticada parafernália eletrônica, os requintes dos efeitos visuais, uma infra-estrutura jamais vista no Brasil em shows, os 140 mil watts da aparelhagem não falharam um único momento, davam o suporte para que o baixista John Deacon, o guitarrista Brian May, o baterista Roger Taylor e o cantor Freddie Mercury mostrassem porque são capazes de lotar estádios de futebol.
O pessoal da televisão estava dando um show de técnica e sensibilidade.
Estávamos todos muito concentrados. Eu sentia as lágrimas molharem meu rosto.
Meus olhos ardiam.


PARTE 8:


“Um final inesperado e sensacional…”
 De repente Freedie vem pra boca de cena do palco e faz sinais pra a platéia (clicarem seus isqueiros)… O povão entendeu.
A luz apagou, a música era “Love of my Life”, milhares e milhares de faíscas em todo o estádio começaram a piscar numa loucura visual, inigualável, mesmo. Aquele Hino, as mãos, os choros convulsivos, jovens extasiados, o estádio ungia suas bênçãos, a sublimação, a eternização da alma.
Meu Deus.
Nunca na minha vida tinha me emocionado tanto em meu trabalho.
Eu olhava para os “camera-men” chorando, com dificuldade de manter os olhos abertos pelas lágrimas.
Os engenheiros ingleses, os nossos, aquele pessoal da pesada, que só vai saber do show pela TV, tempos depois.
Todos estávamos emocionados.
No escuro das faíscas, aquela massa de emoção, já com muita saudade daqueles meninos irreverentes, atenciosos e carregados de muito, muito amor pelo ofício que abraçaram.




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